Solidão mata, literalmente

Desde pequena, me angustia pensar no que eu chamo de hora vazia: quando o mundo que nós construímos começa a partir, e pessoas e atividades e tudo o que amamos começa a se perder. Eu não tenho medo da morte, mas a solidão me faz tremer.

Nos meus estudos da ciência da felicidade, aprendi que a solidão é tão pesada para nós, humanos (a espécie ultra-social), que o nosso corpo está programado para transformar o sentimento de solidão em gatilho para a morte. Nosso cérebro basicamente interpreta esse amargor como um fim de linha, pois não podemos sobreviver sozinhos. O isolamento social faz mais mal à nossa saúde do que fumar 15 cigarros por dia ou ser obeso.

Em pequena, eu sempre pensava na hora vazia como algo enfrentado quando envelhecemos. Mas mais e mais pessoas, das mais variadas idades, experimentam hoje a solidão, em níveis epidêmicos. Você pode estar absolutamente só mesmo rodeado de amigos, mesmo casado e com filhos, mesmo sendo parte de uma enorme equipe de trabalho.

No fim de 2017, uma comissão do governo britânico publicou os resultados de um ano de investigação sobre o tema: 14% da população (9 milhões de pessoas) está sofrendo de solidão. Entre os mais velhos, o índice sobe para mais de 30%. Esse índice é muito semelhante aos 29% de pessoas com mais de 70 anos que se sentem solitárias nos Estados Unidos, segundo um estudo nacional de 2010 com 3.012 adultos acima de 45 anos. Mas o estudo americano (AARP) trouxe outro dado estarrecedor: entre os adultos na faixa dos 45 aos 49 anos, o índice sobe para espantosos 43%. A hora vazia está se adiantando…

O Reino Unido respondeu ao seu relatório com a criação de um Ministério da Solidão, para, nas palavras da primeira-ministra Theresa May, “agir sobre a solidão dos mais velhos, dos cuidadores, daqueles que perderam as pessoas que amam, das pessoas que não têm ninguém com quem falar ou compartilhar seus pensamentos e experiências”. Para mim parece cena de um filme ruim, você chegar ao ponto de criar um ministério da solidão… Só que não é filme. E o esforço de atacar o problema é louvável e necessário.

Enfrentar a solidão, porém, terá que necessariamente passar por uma mudança profunda na nossa atual forma de viver — envolvendo, no fim das contas, todos os ministérios. Madre Teresa já dizia: “A maior doença hoje não é a lepra, o câncer ou a tuberculose, mas o sentimento de ser indesejado, de não ser cuidado e ter sido abandonado por todos”.

Um mundo que incentiva o individualismo, celebra a competição extrema, fertiliza o ódio e promove a construção de muros gera solitários. Uma sociedade que só valoriza o tempo financeiramente produtivo e cuja visão de produtividade é tão estreita e enganada quando a definição do PIB gera solitários.

Como disse o então candidato a presidente dos Estados Unidos Robert Kennedy, em 1968: o PIB cresce com a poluição, a propaganda de cigarro, a destruição das belezas naturais, as ambulâncias para limpar as ruas de carnificinas, os cadeados nas portas e as cadeias para colocar os que tentam arrombá-las. Mas o PIB não leva em conta: a saúde e a qualidade da educação das crianças, a inteligência do debate público, a integridade dos servidores públicos. Também não mede de um povo a sua coragem, sabedoria, aprendizado, compaixão. Kennedy conclui resumindo que o PIB “mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena”.

Esse discurso fará 50 anos agora em março. E ainda medimos a riqueza das nações pelo PIB. Continuamos ignorando que eu posso ser muito rica de dinheiro e pobre de satisfação, de propósito e dignidade. E passamos a produzir, como sociedade, cada vez mais solitários.

Enfrentar a epidemia de solidão passa por reavaliar urgentemente o uso do nosso tempo, a nossa definição de sucesso, o nosso próprio entendimento do que é que nos faz humanos, afinal. Os cientistas dedicados à evolução sabem: o que nos tornou a espécie mais forte do planeta foi a colaboração. Nós somos invencíveis quando colaboramos uns com os outros. E o instinto de colaboração é natural em cada um de nós — mas precisa ser cultivado para se manter, assim como qualquer outro traço humano. O cérebro está permanentemente se reconstruindo, tornando mais forte o que utilizamos.

Depois da notícia da criação do Ministério da Solidão na Inglaterra, intensifiquei uma prática que eu já tinha ao andar no transporte público: usar meu tempo ali para enviar a cada pessoa os meus melhores votos de que, assim como eu, também elas possam ter saúde, segurança e felicidade. Esse é basicamente um exercício para aumentar a nossa compaixão — e a minha colaboração de hoje para esse mundo complicado, mas também possível de ser maravilhoso. Depende de nós.

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